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Vida e obra de Ricardo Ramos
O silêncio talvez seja o segredo de
seu estilo. Tanto o silêncio das
pessoas e das palavras, como o
silêncio das situações. Não há uma
nota dissonante. Nem uma frase
enfática. Nem um diálogo estridente.
Ricardo Ramos se afirma como a
demonstração literária autêntica de
que a plenitude da palavra é realmente
o silêncio.
Tristão de Athayde
“O mestre do silêncio”
No mesmo dia e no mesmo mês –
20 de março – em que, 39 anos antes, o pai, o
consagrado Graciliano Ramos, morrera, vítima
de câncer no pulmão, faleceu, em 1992, Ricardo
de Medeiros Ramos no Hospital São Luís, em São
Paulo, às 7h30min, vítima de câncer no fígado,
com 63 anos completos. Na Academia Paulista de
Letras, onde ocupava a Cadeira 26, desde 1989,
a esposa – D. Marise Ramos –, seus três filhos
– Ricardo, Rogério e Mariana – e os amigos se
despediram e lamentaram a sua perda. Ramos foi
sepultado num sábado, às 10 horas, no
Cemitério Gethsêmani, em São Paulo.
Nascido em Palmeira dos Índios
(AL), em 4 de janeiro de 1929, filho de
Graciliano Ramos e D. Heloísa de Medeiros
Ramos, Ricardo Ramos fez seus primeiros
estudos em Maceió (AL). Com 14 anos partiu
para o Rio de Janeiro, onde iniciou-se no
jornalismo aos 15 anos e passou a estudar à
noite. No final dos anos 40, com cerca de 20
anos, publicou seus primeiros contos,
avulsamente, em revistas e suplementos
literários. Formou-se em Direito, em 1951,
pela Faculdade de Direito da Universidade de
Guanabara do Rio de Janeiro, mas nunca
advogou. Nessa época, já se dedicava à
propaganda e, em função dessa atividade, cinco
anos depois, transferiu-se para São Paulo,
onde morou até 1992. Nos mais de trinta anos
em que viveu em São Paulo, sempre engajado em
causas sociopolíticas, foi escritor,
jornalista, publicitário, professor de
Comunicação e responsável direto por projetos
junto a grandes empresas, como o megaevento
"Bienal Nestlé de Literatura", em todas as
suas edições.
Admirador e amante da
literatura, tinha como preferência os contos
de Machado de Assis, os livros Guerra e paz
e A morte de Ivan Ilitch, de Leon
Tolstoi, e Ninguém escreve ao coronel e
Crônica de uma morte anunciada, de
Gabriel García Márquez.
Até agora, já foram publicados
21 livros de ficção de Ricardo Ramos, entre
literatura "juvenil" e literatura "para
adultos" – novelas, romances, memórias e,
principalmente, contos –, além de três livros
técnicos sobre propaganda. Escreveu seu
primeiro livro com 24 anos, estreando em 1954
com Tempo de espera, um livro de
contos. Os últimos livros que preparou para
edição foram Graciliano: retrato
fragmentado (memórias), O rapto de Sabino
(juvenil) e Estação primeira (coletânea de contos para jovens), os quais
não chegaria a ver impressos. Estação
primeira foi publicado em maio de 1996 na
mesma Série Diálogo, da Scipione, em que foram
publicados os outros três textos "para jovens"
do escritor. Após o fechamento dos trabalhos
deste livro, foram publicados ainda 200
anos de propaganda no Brasil; do reclame ao
cyber-anúncio, livro técnico sobre
propaganda dividido com Pyr Marcondes,
Entre a seca e a garoa, coletânea de
contos para jovens publicada pela Ática na
série "Rosa-dos-Ventos" e Os melhores
contos; Ricardo Ramos, antologia com
seleção e estudo crítico de Bella Josef,
publicada pela Global.
Durante toda a sua vida,
Ricardo Ramos recebeu importantes prêmios
literários: por três vezes, o Jabuti, da
Câmara Brasileira do Livro (novela, de 1959,
contos, de 1961 e 1970), o Guimarães Rosa
(conjunto de obra de contista) no IV Concurso
Nacional de Contos do Paraná, o da Câmara
Municipal de São Paulo (jornalismo), o prêmio
Afonso Arinos (contos) e o Coelho Neto
(romance), da Academia Brasileira de Letras, e
o da Associação Paulista dos Críticos de Arte
(romance), em 1974, entre outros. Foi membro
do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo,
presidente da União Brasileira de Escritores e
o organizador e primeiro diretor do Museu de
Literatura de São Paulo. Juntamente com
escritores como Lygia Fagundes Telles, José
Paulo Paes, Ruth Rocha, entre outros, promoveu
encontros e palestras em faculdades, escolas,
bibliotecas, clubes e entidades culturais
paulistas, procurando apresentar e divulgar o
livro ao público jovem e adulto.
Por ser um profundo conhecedor
do conto produzido no Brasil e no exterior,
trabalhou para muitas editoras selecionando
textos para antologias. Foi responsável, por
exemplo, pela seleção dos textos que compõem a
coleção A Palavra É..., da Editora Scipione.
Aglutinando os contos segundo temas, essa
coleção, recomendada para alunos da 8.ª série
em diante e vestibulandos, traz contos de
escritores consagrados, como Machado de Assis,
Lima Barreto, Clarice Lispector, Lygia
Fagundes Telles, Fernando Sabino, Dalton
Trevisan, Orígenes Lessa, Rubem Fonseca,
Murilo Rubião, Stanislaw Ponte Preta, Luís
Fernando Veríssimo e Graciliano Ramos, entre
outros.
Ricardo Ramos também atuou,
ainda jovem, na imprensa carioca, trabalhando
em jornais e agências. Foi repórter,
noticiarista, redator, cronista e secretário
de redação. Dirigiu páginas literárias em
revistas e jornais do Rio de Janeiro e de São
Paulo. De 1984 a 1986, assinou uma coluna
semanal de crônicas na Folha da Tarde
(São Paulo). Essas crônicas, geralmente
curtas, somam um grande número e destacam-se
pelo enfoque de assuntos cotidianos, sem
perder o humor e a ironia. Além do jornalismo,
trabalhou, ainda, em grandes agências de
publicidade, tendo ocupado o cargo de diretor
da Associação Brasileira de Agências de
Propaganda e exercido a atividade de professor
de Comunicação na Escola de Comunicação Cásper
Líbero e na Faculdade de Comunicação Social
Anhembi, ambas de São Paulo. Na Escola
Superior de Propaganda e Marketing de São
Paulo, foi assessor de direção e decano dos
seus professores.
Muito antes disso, porém, já
se destacara com um dos seus contos sendo
publicado na antologia Maravilhas do conto
moderno brasileiro [1963?], organizada por
Edgar Cavalheiro. Com uma produção bastante
regular, Ramos tem integrado as mais
representativas antologias de contos
brasileiros contemporâneos. O seu estilo
original tem sido evidenciado por estudiosos e
críticos de literatura, sendo que alguns de
seus textos já foram traduzidos para o inglês,
o espanhol, o alemão, o russo e o japonês. Seu
nome consta em dicionários, enciclopédias e
volumes de historiografia literária em geral.
No dia 19 de novembro de 1993,
segundo decreto assinado pelo vice-prefeito em
exercício do Município de São Paulo, a
Biblioteca de Vila Prudente, localizada na
Praça Veiga Cabral, 25, passou a se chamar
Biblioteca Infanto-Juvenil Ricardo Ramos, em
mais um reconhecimento do trabalho do
escritor. Conforme o decreto publicado dia 30
de outubro de 1993, no Diário Oficial do
Município de São Paulo (Ano 38, n.º 203),
"foi autor de contos e antologias escolares,
livros adotados em colégios e ... sua obra se
insere no contexto do imaginário do jovem
adolescente".
Tristão de Athayde lembra-se
do amigo como "o mestre do silêncio" pelo seu
estilo particular de escrever. Além de Athayde,
Ramos contava em seu círculo de amigos com
escritores e intelectuais como José Paulo
Paes, Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Ruth
Rocha, Vivina de Assis Viana, Osman Lins,
Julieta de Godoy Ladeira, Ana Maria Martins,
Marcos Rey, Caio Porfírio Carneiro, José
Carlos Garbuglio, Antônio Callado, Ana Maria
Martins, Bella Josef, Edmir Perrotti, Hélio
Pólvora, Ignácio de Loyola Brandão, James
Amado, Moacyr Scliar, Muniz Sodré, Rachel de
Queiroz, Tatiana Belinky, Hernâni Donato, Luís
Avelima, J. B. Sayeg, entre outros |